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O que o look do Bad Bunny diz sobre a cultura de hoje

E sobre códigos tradicionais sendo ressignificados

O Grammy é o prêmio mais institucional da indústria musical. Historicamente, ele funciona como um sistema de validação: quem pertence ao centro, quem é reconhecido como excelência, quem tem acesso ao prestígio. Em 2026, esse centro se desloca quando Bad Bunny vence Álbum do Ano com um disco totalmente em espanhol. Um marco que vai além da música.


O tuxedo como código de poder

O tuxedo, popularmente chamado de smoking, é o traje máximo do código black tie. Mais do que roupa, ele sempre funcionou como uniforme do poder masculino, associado a status, elite e pertencimento a espaços historicamente restritos.

Ao escolher vestir um tuxedo, Bad Bunny não rejeita esse código. Ele entra nele. E, a partir de dentro, o ressignifica.

A peça assinada pela Schiaparelli marca a estreia da maison em menswear em um tapete vermelho dessa magnitude. Esse dado é importante: ele aponta um movimento de mercado em que a alta-costura passa a olhar o masculino como território de imagem, desejo e narrativa cultural, não apenas como vestuário funcional.


A construção do corpo como discurso

De frente, o tuxedo respeita a tradição. O impacto está na construção. A silhueta é acinturada, arquitetada, afastando-se do corpo masculino tradicionalmente reto. Nas costas, surge o corset com amarrações, um elemento histórico no vocabulário da Schiaparelli.

Na maison, o corset nunca foi apenas uma peça associada ao feminino. Ele é linguagem sobre estrutura, tensão, controle e construção da forma. Quando esse elemento aparece em um tuxedo masculino, no palco mais institucional da indústria musical, ele desloca o significado do traje e questiona quem define corpo, gênero e elegância.

Aqui, moda deixa de ser estética e passa a ser discurso.


Bordados, medida e enquadramento cultural

Nas lapelas e na gola, os bordados remetem à fita métrica, símbolo clássico da alta-costura e do fazer manual. Esses detalhes falam de medida, ajuste e enquadramento: quem mede o corpo? Quem decide o que cabe e o que não cabe dentro de um padrão?

Visualmente, esses elementos também dialogam com uma estética artesanal latino-americana. Não como referência a um país específico, mas como expressão de uma cultura marcada por mistura, imigração e deslocamento. A cultura latina não é homogênea. Ela é híbrida, e essa complexidade aparece no look.


Coerência entre imagem, música e trajetória

Nada disso surge agora. Bad Bunny construiu essa narrativa ao longo dos anos. Nas letras, abordando identidade latina, pertencimento e masculinidade fora do molde. Na imagem, usando saias, unhas pintadas, silhuetas fluidas e códigos que desafiam o masculino tradicional.

O que muda é o lugar de validação.

Ele faz isso no momento de maior reconhecimento institucional da indústria, sem traduzir idioma, sem neutralizar estética, sem suavizar identidade para caber no padrão dominante. Isso revela uma virada cultural clara: diferença deixou de ser risco e passou a ser ativo simbólico e econômico.


Moda, música e mercado cultural

Moda e música sempre caminharam juntas porque ambas constroem identidade coletiva. A música cria o imaginário. A roupa materializa esse imaginário no corpo. No caso de Bad Bunny, o tuxedo não funciona como figurino, mas como posicionamento cultural.

Esse movimento não é isolado. Ele se conecta a uma presença cada vez mais forte da cultura latina no centro do mercado global, mostrando que identidade, quando bem posicionada, gera valor, relevância e poder simbólico.

No fim, o Grammy premiou um álbum.

Mas o look deixou uma mensagem maior: quem entende cultura, antecipa o mercado.

A pergunta que fica é:

Quando códigos tão tradicionais começam a ser ressignificados assim, o que mais ainda vai mudar na forma como a gente entende poder, gênero e pertencimento?


Daniela Marx

Palestrante e Mentora de Negócios de Moda, com mais de 20 anos de experiência em branding, produto e estratégia no mercado de moda.

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